Hoje, a Igreja Católica se reveste de branco e entoa o seu canto de vitória para celebrar uma das solenidades mais gloriosas do ano litúrgico: a Ascensão de Jesus Cristo. Celebrada tradicionalmente quarenta dias após o Domingo da Ressurreição, esta festa marca o encerramento da missão visível e histórica do Verbo Encarnado na Terra e inaugura uma nova era na relação entre a humanidade e o Criador.
Para quem contempla o Cristianismo de fora — ou com o olhar analítico e cético que eu mesmo possuí no passado —, a Ascensão pode parecer uma narrativa poética de despedida. No entanto, na teologia católica, este mistério é o ápice da lógica da Salvação. A Ascensão não é o dia em que Jesus “foi embora”; é o dia em que a nossa natureza humana entrou definitivamente no Céu.
A Ressurreição de Cristo foi o fato histórico que quebrou as correntes da morte, mas Jesus escolheu permanecer na Terra por mais quarenta dias antes de subir ao Pai. Por que essa demora?
A resposta reside na pedagogia divina. Os apóstolos estavam traumatizados pelo escândalo da Cruz. Se Jesus subisse imediatamente ao Céu no Domingo de Páscoa, a Ressurreição poderia ser interpretada como uma alucinação ou uma visão puramente espiritual.
Durante esses quarenta dias documentados nas Escrituras, Jesus realizou o que a teologia chama de “comprovação da carne”. Ele caminhou com os discípulos de Emaús, permitiu que Tomé tocasse em Suas chagas, comeu peixe assado na praia com Pedro e apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez. Ele estava provando que Seu corpo ressuscitado era real, físico e tangível.
Quando o quadragésimo dia chegou, no alto do Monte das Oliveiras, os discípulos já não tinham dúvidas de que Aquele homem era o Senhor do Universo. A Ascensão precisava ser um ato visível para que a inteligência humana compreendesse a trajetória física de Jesus de volta à Glória Celestial.
Para compreender o peso da Ascensão, precisamos voltar ao mistério da Encarnação. Quando o Filho de Deus se fez homem no ventre da Virgem Maria, Ele se uniu, de certa forma, a toda a raça humana. Ele assumiu nossa carne, nossos limites (exceto o pecado), nossas dores e nossa mortalidade.
Na Ascensão, ocorre o movimento inverso. Jesus não “devolveu” a humanidade ao deixar a Terra; Ele subiu com o Seu corpo humano glorificado. Isso significa que, neste exato momento, há um homem sentado no Trono Divino à direita de Deus Pai. A nossa carne, que antes estava condenada ao pó e à corrupção por causa da queda do Éden, agora habita o coração da Santíssima Trindade.
Como afirmava de forma brilhante o Papa São Leão Magno no século V: “A Ascensão de Cristo é a nossa própria elevação”. Onde a Cabeça (que é Cristo) chegou, o Corpo (que somos nós, a Igreja) tem a firme esperança de um dia chegar. O Céu deixou de ser um lugar inacessível e passou a ser a nossa pátria por direito de herança.
A subida de Jesus ao Céu não foi um ato de isolamento, mas um comando de ativação para os Seus seguidores. Antes que uma nuvem — símbolo bíblico da Shekinah, a Glória manifesta de Deus — O encobrisse, Ele deixou duas determinações claras que moldam a estrutura e a ação da Igreja até os dias de hoje, sob o pastoreio do Papa Leão XIV:
O Mandato Missionário (A Grande Comissão): “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo” (Mc 16, 15-16). Jesus descentraliza a Sua presença. Ele deixa de atuar em um único ponto geográfico da Palestina e passa a atuar através de Seus ministros em todo o planeta.
A Esperança do Paráclito: Jesus ordena que eles não saiam de Jerusalém, mas que esperem a promessa do Pai: “Recebereis a força do Espírito Santo e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra” (At 1, 8). Era o anúncio de Pentecostes, o batismo de fogo que a Igreja receberá daqui a dez dias.
O livro dos Atos dos Apóstolos narra que, enquanto os discípulos permaneciam estáticos, com os olhos fixos na abóbada celeste, dois anjos vestidos de branco apareceram e lhes fizeram uma pergunta cortante:
“Homens da Galileia, por que estais aí a olhar para o céu? Esse Jesus que vos foi levado voltará do mesmo modo.”
Esta advertência angélica é um puxão de orelhas teológico para todos nós. Celebrar a Ascensão do Senhor não significa viver de nostalgia pelo passado, nem cruzar os braços em um quietismo místico, esperando o fim dos tempos. O olhar do cristão deve estar fixo no Céu para buscar a meta, mas os seus pés e as suas mãos devem estar firmes na Terra para transformar a realidade.
Para quem vive a rotina do trabalho autônomo, do design, da tecnologia ou do lar, a Ascensão confere uma dignidade extraordinária ao cotidiano. Se a nossa humanidade vai morar no Céu, tudo o que fazemos aqui embaixo ganha peso de eternidade. O nosso trabalho deixa de ser uma mera ferramenta de sobrevivência e passa a ser o palco da nossa santificação.
Cristo subiu visivelmente para que pudéssemos buscá-Lo invisivelmente através da fé e, de modo especial, na Santíssima Eucaristia. Ele não nos deixou órfãos; mudou apenas as coordenadas de Sua presença: antes estava diante de nós, hoje habita dentro de nós.
Fontes:
Sagradas Escrituras: Evangelho segundo São Lucas (24, 50-53), Evangelho segundo São Marcos (16, 14-20) e Atos dos Apóstolos (1, 1-11).
Catecismo da Igreja Católica (Artigos 659-667): Seção dedicada à profissão de fé do Credo: “Subiu aos Céus, está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso”.
Santo Tomás de Aquino (Suma Teológica, III, q. 57): Estudo detalhado do Doutor Angélico sobre a conveniência da Ascensão, o poder pelo qual Cristo subiu e os efeitos do milagre sobre a nossa salvação.
São Leão Magno (Sermão 74 sobre a Ascensão): Texto patrístico clássico que analisa a transição da presença visível de Cristo para os mistérios sacramentais da Igreja.
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